AGROGLIFO, MEMÓRIA E CONTINUIDADE: “UM DIA EXTRAORDINÁRIO” ESTREIA NA TELA QUENTE

O telefilme catarinense “Um Dia Extraordinário”, dirigido por Cíntia Domit Bittar, estreia nacionalmente nesta segunda-feira (23/02), às 23h, na Tela Quente, após o BBB. A produção da Novelo Filmes, em coprodução com Globo Filmes e NSC TV, também ficará disponível por uma semana no Globoplay e integra o projeto Telefilmes Regionais, iniciativa voltada à valorização de histórias locais na TV aberta.

Filmado em Abelardo Luz, Bom Retiro e Florianópolis, com uma produção com cerca de 80 pessoas, o longa parte do surgimento de um agroglifo de 105 metros em uma pequena propriedade rural no Oeste catarinense para construir algo muito maior que um mistério: um drama familiar sobre tempo, cuidado e permanência.

O agroglifo como catalisador, não como resposta

Na trama, Moira (Alana Bortolini) vive no campo cuidando da mãe Ivete (Margarida Baird), uma senhora fascinada por extraterrestres e já afetada pelo Alzheimer. O aparecimento do agroglifo atrai curiosos e provoca o retorno dos irmãos Cecília (Paula Braun) e Maurício, expondo tensões acumuladas e o desgaste do envelhecimento da matriarca.

Mas o filme deixa claro: o agroglifo não é o tema — é o disparador.

Cíntia não está interessada em respostas cósmicas, mas em algo muito mais terreno: como cada membro daquela família reage à ideia de que algo extraordinário pode romper a rotina. E, sobretudo, como a vida continua exatamente igual depois da euforia. Há um filho que pensa em monetizar o fenômeno. Uma filha que quer apenas ir embora. Outra que permanece, sobrecarregada pelo cuidado. E uma mãe que olha para o céu esperando algo que talvez já não espere mais da própria família.

Um Dia Extraordinário começa no escuro. Plantação, noite, isolamento. E isso não é apenas atmosfera – é experiência. Lembro da Cíntia contando na sessão de Círculos (documentário sobre os sinais em plantações no Oeste Catarinense) que ficou sozinha numa lavoura, à noite, esperando algo que talvez nem chegasse. O medo do vazio. O medo do céu. Esse sentimento atravessa o filme. Não é um horror fabricado; é o medo de um isolamento real, da vastidão que nos engole. E do que pode acontecer. E o isolamento aqui é múltiplo: é físico, é mental e é geracional.

Há uma imagem belíssima: o drone em plongée sobre a idosa de braços abertos, esperando algo do céu. Pequena diante do universo. Pequena diante da própria doença. É uma imagem que sintetiza o filme: expectativa e fragilidade. Ela olha para cima esperando algo que venha de fora, porque de dentro, da família, ela já não espera mais nada. Não é apenas fé ou delírio. É deslocamento. É alguém que já não encontra sentido no que está ao redor e passa a buscar no céu aquilo que a terra não oferece mais. A câmera da Cíntia entende isso. Ela não julga, não ironiza, não transforma em espetáculo. Ela observa. E ao observar, humaniza.

O cinema de Cíntia: desconforto e delicadeza

Quem acompanha o cinema de Cíntia Domit Bittar reconhece seu olhar. Desde seus curtas até o premiado “Virtuosas” (vencedor do Prêmio Netflix na 49ª Mostra SP), sua câmera nunca é neutra. Ela observa de perto. Inclina levemente o enquadramento quando o desconforto precisa existir. Aproxima-se quando a intimidade pede espaço.

Em Um Dia Extraordinário, esse gesto aparece com clareza. A câmera inclina o plano nas cenas de tensão familiar. O Oeste catarinense surge amplo, entre morros e plantações, distante dos cartões-postais litorâneos. Santa Catarina aqui não é a Ponte Hercílio Luz nem as praias de Florianópolis — é interior, é sotaque forte, é fogão aceso no fósforo, é água filtrada, é jogo de cartas em família.

Cíntia sempre nos guia pelo seu olhar. E isso é uma das maiores forças do seu cinema.

O extraordinário é o que permanece

Um Dia Extraordinário transita entre drama familiar, mistério, leve ficção científica e realismo regional. Mas o que fica não é o fenômeno no campo. É a pergunta silenciosa: o que realmente muda? O agroglifo pode surgir. A vizinhança pode comentar. A televisão pode filmar. Mas a vida continua. E talvez seja justamente aí que o filme encontra sua força: no entendimento de que o extraordinário não está no céu, mas na permanência. No cuidado. Na fragilidade. Na memória que insiste em escapar.

Santa Catarina, aqui, não é cenário. É personagem.

E Cíntia Domit Bittar reafirma algo que já atravessa toda a sua filmografia: a câmera como extensão da própria autora. Seu cinema não é apenas sobre o que ela filma, mas sobre como ela sente aquilo que filma. A câmera observa como ela observa. Inclina quando há desconforto. Aproxima quando há intimidade. Mantém distância quando o vazio precisa respirar.

Desde trabalhos mais simples como Qual Queijo Você Quer? até obras mais densas como O Segredo da Família Urso, A Menina Só, Tempo Que Leva ou Virtuosas, há uma coerência silenciosa: a forma como a câmera se comporta é a forma como Cíntia quer se posicionar diante do mundo. Não é apenas direção, é presença. E isso já se tornou assinatura.

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