
O terror de 2025 deixou algo claro: o luto, sozinho, já não basta.
Durante anos, o gênero encontrou no trauma familiar, na perda e na depressão um terreno fértil para se reinventar. Filmes importantes surgiram desse movimento, mas o excesso transformou o que antes era devastador em algo previsível. O espectador já sabe reconhecer os sinais, antecipar os conflitos e, muitas vezes, adivinhar o desfecho emocional.
Os filmes de terror mais interessantes de 2025 são justamente aqueles que rompem com essa zona de conforto. Não porque abandonam o luto — ele ainda está presente —, mas porque recusam fazer dele o centro organizador do medo.
Essa lista dos 35 melhores filmes de terror de 2025 reflete esse deslocamento. Em um extremo, estão obras que apostam no horror como força arcaica, espiritual ou folclórica — filmes onde o mal não surge para ser enfrentado, mas para continuar existindo. Em outro, crescem os horrores assumidamente indulgentes, cínicos ou violentos, que não escondem o gênero sob camadas de respeitabilidade dramática e, justamente por isso, reconquistam o entusiasmo do público.
A seguir, os meus filmes de terror favoritos de 2025:
35 – Don’t Hang Up, de Alex Herron
Sinopse:
Após viajar a Tulsa, Oklahoma, para o casamento de uma amiga da faculdade, Summer retorna com duas amigas para a casa alugada onde ficarão no fim de semana. Distante do namorado, com quem se comunica apenas por chamadas de vídeo, ela logo percebe que a presença do grupo despertou os fantasmas de uma família assassinada durante o massacre racial de Tulsa, em 1921. Agora, essas entidades buscam justiça.
Comentário:
Existe um grande filme perdido neste curioso found footage de Alex Herron. A atmosfera da primeira metade é extraordinária; embora seus fantasmas surjam como aparições amadoras, o verdadeiro segredo está na construção de suspense. Esse, no entanto, é também o maior problema de seu clímax: todo o suspense cuidadosamente erguido é sabotado por uma trama esquisita e por personagens que se tornam cada vez mais antinaturais à medida que o tempo avança. É uma pena que o desfecho não faça jus à construção inicial e que seus personagens se tornem insuportáveis em alguns momentos. Ainda assim, quando Don’t Hang Up consegue se aproximar de um horror verdadeiramente inspirado, ele chega a lembrar Hell House LLC — e isso é um elogio e tanto.
Onde está disponível:
VOD
34 – Dream Eater, de Alex Lee Williams, Mallory Drumm & Jay Drakulic
Sinopse:
Durante uma viagem a uma cabana isolada na floresta, uma cineasta decide documentar os episódios de parassonia violenta do namorado. À medida que as noites avançam, o que começa como registro íntimo se transforma em um mergulho inquietante na perda de controle, do corpo e da intimidade.
Comentário:
É verdade que o roteiro é fraco e que o terceiro ato é particularmente pavoroso no pior sentido possível. Ainda assim, Alex Lee Williams e, sobretudo, Mallory Drumm demonstram um controle formal e uma presença cênica extraordinários, capazes de sustentar o filme por boa parte de sua duração.cA protagonista evoca diretamente a tônica estabelecida por Leigh Janiak em Honeymoon, filtrada pela estética do found footage à la Atividade Paranormal: a pergunta central não é “o que está acontecendo?”, mas “afinal, com quem diabos estou dividindo minha cama?”. Quando Dream Eater se ancora nessa inquietação íntima, ele revela um horror genuíno — infelizmente abandonado quando a narrativa exige resoluções que não sabe sustentar.
Onde está disponível:
VOD
33 – Virtuosas, de Cíntia Domit Bittar
Sinopse:
O retiro Jornada Virtuosa VIP, criado para aperfeiçoar a feminilidade cristã, transforma-se em uma experiência caótica e perigosa. O que começa como uma imersão espiritual conduzida pela excêntrica coach Virgínia Heinzel rapidamente desmorona, mergulhando Germina e as demais participantes sorteadas em uma jornada absurda e imprevisível.
Comentário:
Embora Santa Catarina possua uma tradição sólida de curtas-metragens — muitos deles de altíssima qualidade —, o mesmo nunca se refletiu com a mesma força no campo dos longas-metragens. Pelo contrário: a produção local frequentemente parece refém de figuras marcadas pela falta de personalidade, que recorrem a um paternalismo desesperado como forma de se manter relevantes. Mesmo diretores vindos de fora do Estado para filmar Santa Catarina ou utilizá-la como cenário central — como no conhecido caso de Jeferson De e o problemático O Amuleto — jamais alcançaram um lugar cinematográfico realmente significativo. O problema não reside apenas na qualidade técnica, mas na urgência recorrente de tratar Florianópolis e o Estado como mero cartão-postal ou como território essencialmente bruxólico. As tradições da bruxaria e os cenários paradisíacos da região são, de fato, elementos ricos. O esvaziamento ocorre quando são usados de forma gratuita, como identidade automática. É justamente por isso que chama atenção o primeiro longa-metragem de ficção de Cíntia Domit Bittar. Virtuosas possui uma amplitude rara no cinema catarinense recente e se aproxima muito mais do cinema de Walter Hugo Khouri do que do cinema de Zeca Pires. Aqui, os aspectos folk interessam mais do que qualquer espiritualidade pasteurizada imposta como assinatura regional. Sem dúvida, trata-se do melhor longa-metragem de horror já produzido em Santa Catarina.
Onde está disponível:
Ainda indisponível no streaming no Brasil.
32 – The Carpenter’s Son, de Lotfy Nathan
Sinopse:
Ambientado em uma vila remota no Egito da era romana, The Carpenter’s Son acompanha um carpinteiro, sua esposa e seu filho quando forças sobrenaturais passam a persegui-los, desencadeando um conflito espiritual que mistura fé, medo e violência invisível.
Comentário:
A proposta de The Carpenter’s Son parte de um ponto conceitualmente potente: revisitar o horror religioso a partir de um contexto pré-cristão institucionalizado, onde fé e superstição ainda se confundem. Imagine a história da infância de Jesus como um filme de horror, essa é exatamente a abordagem de Lofty Nathan.
Onde está disponível:
Amazon e VOD
31 – Prédio Vazio, de Rodrigo Aragão
Sinopse:
Luna inicia uma jornada em busca da mãe, desaparecida no último dia de Carnaval em Guarapari. Sua investigação a conduz a um antigo prédio aparentemente abandonado, mas habitado por almas atormentadas, onde passado, ruína e horror se acumulam como camadas do tempo.
Comentário:
Rodrigo Aragão é, talvez, o maior diretor do cinema de horror do Brasil, e é gratificante acompanhar sua trajetória em tempo real. Em Prédio Vazio, ele busca evidenciar a imposição da ruína na velhice. Enquanto a modernidade se apresenta como algo contínuo e progressivo, a velhice destoa, desbota, revela-se temporal e impositiva. Não há saída. Esse contraste geracional não se estabelece entre mãe e filha — que compartilham um elo —, mas entre o próprio tempo e a energia das coisas. Quando Aragão acerta, ele acerta muito. Há alívio na tensão nas cenas envolvendo as cruzes do quarto de Gilda Nomacce, verdadeira dona do filme; há o despertar do horror quando o corpo cai do prédio — e também quando esse horror se encerra; há, ainda, a decisão de iniciar o filme pela velhice e pelos tempos antigos de uma Guarapari já distante. As ideias estão todas ali. Contrário ao uso excessivo de CGI — até porque, na minha visão, Aragão é o melhor maquiador do mundo —, suas criaturas aqui parecem menos inspiradas do que em trabalhos anteriores, o que impacta diretamente no efeito desejado. Seus fantasmas se aproximam mais de zumbis à la Giannetto De Rossi — talvez uma referência consciente —, mas que abre uma pequena lacuna diante da ambição do projeto. Prédio Vazio é, claramente, um filme de terror independente, que só alcança o mainstream porque o talento de Aragão ultrapassa barreiras. Ainda que esteja distante de seus melhores trabalhos, o filme permanece como mais um capítulo sólido de sua força como realizador.
Onde está disponível:
Claro tv+ e Apple TV
30 – Hell House LLC: Lineage, de Stephen Cognetti
Sinopse:
Após uma experiência de quase morte, Vanessa Shepherd passa a ser assombrada por pesadelos ligados a Abaddon. À medida que mortes misteriosas começam a ocorrer ao seu redor, ela descobre sua conexão com o Hotel Abaddon, a Mansão Carmichael e décadas de assassinatos inexplicáveis.
Comentário:
Stephen Cognetti criou uma franquia histórica — isso é inegável. O maior problema para os fãs de Hell House LLC talvez seja a ausência do found footage aqui, recurso que, embora pudesse ser aplicado em diversos momentos, não me fez tanta falta. A mitologia dos Carmichael continua intrigante e bem amarrada ao universo da série, mesmo quando o filme falha em criar uma protagonista carismática. As tramas paralelas nem sempre se encaixam com precisão, o que dilui parte da tensão e do envolvimento emocional. Ainda assim, Cognetti demonstra pleno domínio de seu próprio universo narrativo e, mesmo com irregularidades evidentes, consegue novamente capturar o espectador. Lineage não está entre os capítulos mais fortes da franquia, mas reafirma sua importância dentro do horror contemporâneo.
Onde está disponível:
VOD
29 – The House Was Not Hungry Then, de Harry Aspinwall
Sinopse:
Enquanto procura pelo pai distante, uma jovem invade uma casa aparentemente vazia no campo, onde todos os visitantes desaparecem misteriosamente. Presa no local, ela precisa evitar um homem que se passa por corretor de imóveis e atrai vítimas para dentro da residência.
Comentário:
Pense em uma cruza entre I’m Thinking of Ending Things e Presence: assim se apresenta o primeiro longa de Harry Aspinwall, The House Was Not Hungry Then. Há no filme um conceito voyeurístico interessante, que imprime certa elegância narrativa à forma como a casa é observada e encenada. Alguns elementos visuais são realmente potentes — como a porta antiga deitada em um quarto que parece funcionar como uma fita VHS eternamente rebobinando, ou os grandes olhos que ocupam a sala de estar. No entanto, o mesmo tom contemplativo que sustenta sua aura meditativa também se torna, em diversos momentos, profundamente tedioso, quase como um exercício de paciência imposto ao espectador. É como se o diretor estivesse imerso em uma vibração muito própria, sussurrando “olhe como isso é interessante”, enquanto o espectador responde: “sim, é ótimo — agora vá logo com isso”. A ideia existe, a atmosfera também, mas falta pulso narrativo para que o filme sustente sua própria ambição. Mas, ainda assim, o gosto amargo é menor do que o que fornece.
Onde está disponível:
VOD
28 – The Conjuring: Last Rites, de Michael Chaves
Sinopse:
Ed e Lorraine Warren enfrentam seu último caso como investigadores paranormais, lidando com entidades misteriosas que colocam à prova não apenas sua fé, mas também os vínculos que sustentaram toda a trajetória do casal.
Comentário:
Ainda me surpreende o quanto a franquia Invocação do Mal conseguiu sobreviver a um diretor tão frágil quanto Michael Chaves. Last Rites é a prova definitiva de que a força da série reside, essencialmente, no impacto e no rigor artístico de seus dois primeiros filmes. É impossível falar de Invocação do Mal sem mencionar essas obras iniciais, raríssimas no cinema, verdadeiras obras-primas. São filmes tão marcantes que fizeram com que os capítulos dirigidos por Chaves — o terceiro e este quarto — se afastassem dos casos para se concentrarem quase exclusivamente na família Warren. Vive-se de nostalgia. A pergunta é: isso basta? Curiosamente, basta. Mesmo com uma direção amadora, uma montagem confusa e uma fotografia empobrecida, é difícil não se emocionar ao observar o vínculo familiar construído logo no início, ou perceber o quanto esse universo se tornou inesperadamente romântico. A continuidade fez crescer algo maior do que um simples filme de terror. O Último Ritual ganha força por seus personagens — todos muito bem escalados — e não por seu horror. Como filme de terror, é pobre, a bem da verdade. Mas como gesto de paixão e despedida, é contagiante. Jamais esquecerei dos Warren. São personagens que o cinema raramente oferece. Aproveitem. Eu aproveitei.
Onde está disponível:
Amazon Prime Video, Claro tv+, Apple TV, HBO Max.
27 – Together, de Michael Shanks
Sinopse:
Anos dentro de um relacionamento, Tim e Millie se mudam para o campo na tentativa de recomeçar, deixando para trás tudo o que lhes era familiar — exceto um ao outro. Com tensões já latentes, um encontro noturno com uma força misteriosa e antinatural ameaça corromper suas vidas, seu amor e seus próprios corpos.
Comentário:
Together não é um filme frio, provocador ou verdadeiramente angustiante como Else, no qual as relações são involuntárias e aleatórias. Aqui, Michael Shanks parece mais interessado no entretenimento e no martírio de relacionamentos tóxicos que acabam se fundindo em uma codependência inconsciente — e, sobretudo, previsível. Há uma ironia fina no fato de Juntos ser mais sobre a relação corporal entre os personagens do que sobre qualquer ideia real de simbiose extracorpórea. O horror serve como alegoria direta, pouco ambígua, e raramente ultrapassa o nível da ilustração. Funciona, diverte, mas permanece restrito a isso: um exercício competente, porém limitado.
Onde está disponível:
Prime Video e Apple TV
26 – Influencers, de Kurtis David Harder
Sinopse:
Nos cenários idílicos do sul da França, a obsessão perturbadora de uma jovem por assassinatos e roubo de identidade transforma sua vida em uma espiral de caos, desejo e violência, onde imagem e realidade se confundem.
Comentário:
Kurtis David Harder é um diretor que demonstrou certa facilidade em compreender a geração Alpha — sua dinâmica, sua ostentação viral sem lastro e, sobretudo, sua incapacidade de estabelecer proximidade real. Isso já se insinuava em sua filmografia anterior, ainda que Spiral — meu favorito — tenha seguido por outro caminho. Em Influencers, esse domínio se evidencia mais do que nunca. Harder constrói um universo em que homens surgem como seguidores-marionetes de mulheres mais inteligentes e sedutoras, movidos por sexo cego, fetichização do true crime e pela lógica de uma geração tão intensa quanto autodestrutiva. O filme entende bem seu próprio jogo e se entrega a ele com cinismo. É mais divertido — e mais consciente — do que o primeiro capítulo da franquia.
Onde está disponível:
VOD
25 – Vleesdag, de Martijn Smits
Sinopse:
Mirthe, integrante do grupo ativista Animal Army, infiltra-se em uma fazenda de porcos para registrar os horrores cometidos ali e libertar os filhotes. Sua ação, no entanto, desencadeia um confronto sangrento entre a vingança de Nasha e a fúria do fazendeiro.
Comentário:
Imagine Leatherface sendo dirigido por Julia Ducournau em um novo surto de “extremismo holandês”. Esse é, em essência, o efeito de Meat Kills. Brutal, físico e direto, o filme aposta no choque corporal e na violência como discurso, sem qualquer preocupação em suavizar suas imagens ou intenções.
Onde está disponível:
VOD
24 – #MissingCouple, de Jacques Edeline & Oliver Mauldin
Sinopse:
Austin e Janna eram um casal adepto do vanlife que documentava nas redes sociais a reforma de uma fazenda abandonada no interior do Mississippi. Com as câmeras sempre ligadas, eles passaram a registrar acontecimentos cada vez mais perturbadores durante a noite. Pouco depois, desapareceram. O que aconteceu permanece um mistério.
Comentário:
É curioso perceber que não há nada particularmente sedutor ou bem explorado no folclore local ligado ao Acampamento Van Dorn — ainda que a história, de fato, exista. Mesmo assim, a curiosidade cresce, levando o espectador a buscar rastros reais do caso fora do filme. Essa é, talvez, a maior virtude de #MissingCouple. O longa se estrutura como um true crime característico, aberto a múltiplas leituras: pode ser um assassinato seguido de suicídio, algo sobrenaturalmente inexplicável ou até uma grande encenação. Essa ambiguidade sustenta o interesse e transforma o filme em um found footage simples, mas eficiente — e, acima de tudo, divertido.
Onde está disponível:
VOD
23 – Den stygge stesøsteren, de Emilie Kristine Blichfeldt
Sinopse:
Em um reino de conto de fadas onde a beleza é um negócio brutal, Elvira luta para competir com sua deslumbrante meia-irmã. Disposta a tudo para chamar a atenção do príncipe, ela embarca em uma jornada de obsessão, violência e autoaniquilação.
Comentário:
Anna Biller, é você?! Físico, corporal e divertido. Um versão curiosa de Cinderella, mas no ponto de vista de uma das irmãs más.
Onde está disponível:
Prime Video e MUBI
22 – Bloody Axe Wound, de Matthew John Lawrence
Sinopse:
Abbie Bladecut é uma adolescente dividida entre as tradições macabras do negócio sangrento da família e os primeiros impulsos de um romance adolescente. Em Clover Falls, seu pai construiu uma reputação infame ao registrar assassinatos reais em fita e vendê-los para um público ávido. À medida que Abbie se aprofunda nesse legado grotesco, começa a questionar se não é hora de mudar o rumo da tradição familiar.
Comentário:
Divertidíssimo, simpático e surpreendentemente romântico. Na maior parte do tempo, o filme carrega uma vibração que lembra Behind the Mask: The Rise of Leslie Vernon; em outros momentos, evoca algo próximo de Pânico na Escola. Em uma fase em que o horror parece cada vez mais empenhado em discutir temas densos e traumáticos, uma diversão honesta como essa cai muito bem.
Onde está disponível:
VOD
21 – Dangerous Animals, de Sean Byrne
Sinopse:
Uma surfista inteligente e de espírito livre é sequestrada por um serial killer obcecado por tubarões. Mantida em cativeiro em seu barco, ela precisa encontrar uma forma de escapar antes que ele realize um ritual macabro de alimentação dos animais no mar abaixo.
Comentário:
Sean Byrne é um diretor brilhante, mas Dangerous Animals é, sem dúvida, seu trabalho menos inspirado. Talvez isso se deva ao fato de não assinar o roteiro pela primeira vez, ainda que o texto de Nick Lepard apresente bons momentos — especialmente nos diálogos e na construção da filosofia marítima que envolve o curioso serial killer vivido por Jai Courtney. Ainda assim, Byrne parece deslocado de seu habitat natural — com o perdão do trocadilho. É um filme que eu esperaria de Alexandre Aja, não da mente por trás de The Loved Ones e The Devil’s Candy. A sequência da morte de Ella Newton é fantástica, ainda assim, bem como o sequestro inicial da protagonista, ambos conduzidos com precisão e impacto. É um filme de bons e maus momentos, mas com Byrne por trás das câmeras.
Onde está disponível:
Prime Video
20 – Bone Lake, de Mercedes Bryce Morgan
Sinopse:
O retiro romântico de um casal em uma mansão isolada à beira de um lago se transforma em pesadelo quando eles são obrigados a dividir o espaço com outro casal misterioso e sedutor. Entre jogos de poder, sexo, mentiras e manipulação, segredos vêm à tona e a noite termina em um confronto sangrento pela sobrevivência.
Comentário:
Sexy, violento e povoado por personagens que realmente importam. Bone Lake equilibra erotismo e brutalidade com segurança, transformando o espaço isolado em um campo de disputa psicológico e físico. Mercedes Bryce Morgan, finalmente, conquistou minha atenção.
Onde está disponível:
VOD
19 – The Gorge, de Scott Derrickson
Sinopse:
Dois agentes altamente treinados são designados para vigiar lados opostos de um desfiladeiro misterioso. À distância, eles criam uma conexão improvável, até que uma força maligna emerge das profundezas, obrigando-os a trabalhar juntos para sobreviver ao que habita o interior do abismo.
Comentário:
Scott Derrickson é um diretor excepcional na construção de tensão, e eu poderia assistir por horas à química absolutamente magnética entre Miles Teller e Anya Taylor-Joy. A primeira metade de The Gorge é realmente fantástica, sustentada por silêncio, expectativa e desejo contido. O problema surge quando o filme abandona essa contenção. A segunda metade atira — literalmente — para todos os lados, trocando atmosfera por excesso e diluindo a força do que havia sido cuidadosamente construído. Ainda assim, o impacto inicial garante ao filme um lugar sólido no ranking.
Onde está disponível:
Apple TV
18 – Hag, de Sam Wineman
Sinopse:
Após uma década afastados, Rowan aluga o quarto extra de seu apartamento para Mag, uma mulher que se autodenomina “bruxa”. O reencontro rapidamente se transforma em obsessão, levando a relação a um confronto cada vez mais perigoso e pessoal.
Comentário:
Uma bruxa moderna se torna obcecada por um bairrista homossexual e transforma a vida dele em um inferno. Hag é brega, constrangedor e indulgentemente divertidíssimo. O filme abraça o exagero, flerta com o mau gosto e se sustenta justamente por essa disposição em ir longe demais — consciente de si e sem vergonha alguma.
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17 – Host (แม่ซื้อ), de Pairach Khumwan
Sinopse:
Ing é enviada para a Escola de Reabilitação Pinijkhun, uma instituição feminina localizada em uma ilha remota, onde a regra absoluta é a obediência. Sob a vigilância constante e o peso de uma disciplina rígida, forças ocultas começam a se manifestar, transformando o espaço em um território de dominação espiritual e psicológica.
Comentário:
O cinema de horror indonésio e tailandês está entre os mais interessantes da atualidade — e muito disso se deve ao fato de não temerem assumir plenamente o gênero. Host sugere um drama de repressão, mas o mantém como elemento coadjuvante, nunca como centro da narrativa. O verdadeiro protagonista é o espírito de uma entidade que domina mente, corpo e afetos daqueles que cruzam seu caminho. O filme compreende que o horror, aqui, não precisa ser metafórico demais: ele é direto, possessivo e invasivo.
Onde está disponível:
Prime Video
16 – Found Footage: The Making of the Patterson Project, de Max Tzannes
Sinopse:
Uma equipe de documentaristas acompanha um jovem cineasta ambicioso em sua tentativa de realizar o maior filme de found footage de todos os tempos. O que começa como um projeto metalinguístico rapidamente foge de controle.
Comentário:
É interessantíssimo observar como uma equipe tresloucada e um diretor soberbo, após um primeiro ato maçante, descambam para uma estrutura que eu definitivamente não previa — e que se revela incrivelmente divertida. O filme brinca com expectativas, linguagem e arrogância criativa. Imagine tentar gravar um found footage sobre o Pé-Grande, planejando um grande twist, e descobrir que o verdadeiro twist é ter libertado um demônio em uma cabana, sem qualquer futuro possível para você ou para o próprio filme. É exatamente isso que acontece aqui. E funciona.
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15 – It Ends, de Alexander Ullom
Sinopse:
Um grupo de recém-formados sai para uma última volta noturna antes de cada um seguir seu próprio caminho. No trajeto, acabam entrando em uma estrada de duas pistas que parece não ter fim, cercada por horrores indefinidos e forças cósmicas além de qualquer compreensão. Presos dentro de um Jeep Cherokee, eles precisam decidir entre aceitar essa nova existência ou lutar para escapar dela.
Comentário:
It Ends é menos um filme sobre acontecimentos e mais sobre seguir. Sobre a vida como uma linha reta, aparentemente vazia, onde os obstáculos primeiro assustam, depois cansam, e então passam a simplesmente fazer parte do caminho. Trata-se de uma jornada sem promessa de chegada, mais interessada no desgaste do que na descoberta. Há algo de existencialmente próximo a She Dies Tomorrow aqui — não pela forma, mas pela ideia de contágio: a percepção de que a vida continua mesmo quando o sentido já não é claro. A química entre o grupo funciona justamente porque eles parecem se conhecer há tempo demais, como uma geração autoconfiante, cheia de respostas prontas. Em especial, destaca-se o personagem mais frio, que enxerga o mundo como um jogo, em contraste com os outros, mais afetivos e suscetíveis, que aos poucos vão desistindo. O problema — e também a virtude — de It Ends está em seu desfecho indulgente e levemente cínico. Ao assumir que não há resposta, o filme transforma essa ausência em conclusão. É coerente com o percurso, mas confortável demais. Funciona por honestidade, falha por falta de risco. Não é um filme apaixonante nem arrebatador. É um filme que caminha junto, observa e se despede.
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14 – Hallow Road, de Babak Anvari
Sinopse:
Dois pais entram em uma corrida desesperada contra o tempo após receberem, no meio da noite, uma ligação angustiante da filha, que se envolve em um grave acidente de carro. À medida que avançam pela estrada, a realidade do ocorrido começa a se desfazer.
Comentário:
“Eu estava tão certa do que eu estava olhando que eu perdi.”
Em alguns contos, quando um membro da família morre longe de casa, o lamento da Banshee é o primeiro aviso que chega aos parentes distantes. O novo filme de Babak Anvari, diretor de Under the Shadow, se aproxima desse imaginário como um folk curioso, mais interessado na complexidade emocional de personagens presos a situações cíclicas do que no sobrenatural em si. Matthew Rhys e Rosamund Pike brilham em uma corrida de carro em busca da filha acidentada — uma jornada que rapidamente se revela muito diferente do que parece. Há traços claros da segunda onda do folk horror aqui, mas é na sutileza, no deslocamento gradual da percepção e na fragilidade da certeza, que Anvari realmente impressiona.
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13 – Alma & the Wolf, de Michael Patrick Jann
Sinopse:
Após um ataque violento de um animal, a paranoia começa a se espalhar pela pequena cidade de Spiral Creek. Quando o vice-xerife Ren Accord se aproxima demais da verdade, seu filho desaparece, e a própria realidade passa a se fragmentar.
Comentário:
“Om Shanti Om, motherfuckers!”
De Josh Ruben no crack para Tilman Singer — essa é a confusão narrativa que orbita Alma & the Wolf. O filme se move em frequências instáveis, alternando humor, delírio e colapso psicológico, sustentado por uma atuação absolutamente inesquecível de Ethan Embry. O roteiro de Abigail Miller funciona como um estudo de personagem que, quando finalmente encontra seu eixo, se torna interessantíssimo, vívido e surpreendentemente potente. A comédia surge como afrodisíaco evidente, mas há camadas mais densas em jogo — de identidade, paranoia e perda de controle. É um filme que pede revisão. E eu pretendo revê-lo em breve.
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12 – Grafted, de Sasha Rainbow
Sinopse:
Uma estudante chinesa brilhante, porém socialmente deslocada, conquista uma bolsa em uma prestigiada universidade da Nova Zelândia. Em busca da popularidade que sempre desejou, ela encontra um caminho sangrento para remodelar sua própria identidade.
Comentário:
Doentio, perverso, cínico e, por vezes, maravilhoso. Grafted é exatamente o tipo de filme que tende a ser cultuado com o passar dos anos. Um exemplar estranhíssimo que transita entre Lifechanger e May – Obsessão Assassina, sem jamais se fixar confortavelmente em um único tom. Tudo parece fora de lugar — e esse é precisamente o ponto que torna o filme tão fascinante. A estranheza não é um acidente, mas um método. Ao abraçar o desconforto e o desvio, Grafted constrói um horror que seduz justamente por sua recusa em agradar.
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11 – Man Finds Tape, de Paul Gandersman & Peter S. Hall
Sinopse:
Após se depararem com uma série de vídeos estranhos e inexplicáveis, dois irmãos decidem investigar os acontecimentos registrados nas fitas. O que descobrem revela um segredo perturbador que parece estar tomando conta de uma pequena cidade do Texas.
Comentário:
Pessoas aparentemente hipnotizadas perdem o controle do próprio corpo durante momentos de culto ou assassinato em uma cidadezinha do Texas. É nesse cenário que dois irmãos tentam entender o que, afinal, está acontecendo. A primeira impressão é a de estar diante de um filme perdido do início da carreira de Adam Wingard — algo entre Pop Skull, Home Sick ou A Horrible Way to Die. As fitas encontradas evocam fortemente Sinister, de Scott Derrickson, tanto na textura quanto na construção do mistério. No entanto, quando a revelação finalmente chega — e ela me surpreendeu —, o filme se aproxima muito mais do cinema de Justin Benson e Aaron Moorhead, aqui como produtores. Man Finds Tape é um trabalho profundamente ancorado nas melhores referências do terror produzido entre 2007 e 2017. E talvez seja justamente por isso que ele fisgue com tanta facilidade: trata-se de um filme que entende, respeita e recicla esse período com inteligência e prazer.
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10 – Else, de Thibault Emin
Sinopse:
Anx acaba de conhecer Cass quando um vírus misterioso se espalha pelo mundo, fazendo com que corpos humanos se fundam a objetos e ao próprio ambiente. Presos em seu apartamento, o casal precisa lidar com uma ameaça que é, ao mesmo tempo, física, psicológica e existencial.
Comentário:
Imagine agorafóbicos e misofóbicos presos em meio a uma pandemia macabra, na qual pessoas passam a se fundir com… matéria. Seja ela material ou imaterial, você pode se tornar parte de suas coisas ou do próprio mundo a qualquer momento. Essa é a premissa inquietante de Thibault Emin em Else.
À medida que o filme avança, o que começa como curiosidade mecânica se torna cada vez mais corporal e chocante. O horror abandona a abstração e assume formas grotescas — como na perturbadora cena da morte envolvendo um monte de cimento. Else é um body horror desconfortável, inventivo e difícil de esquecer, que transforma a fusão entre corpo e mundo em algo verdadeiramente aterrador.
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9 – Missing Child Videotape (ミッシング・チャイルド・ビデオテープ), de Ryota Kondo
Sinopse:
Keita encontra um menino desaparecido em uma área de mata e, pouco tempo depois, recebe uma fita de vídeo misteriosa enviada por sua mãe afastada. A partir desse ponto, passado e presente começam a se contaminar por algo que insiste em não se resolver.
Comentário:
Nem tudo termina, nem tudo se desprende de nós — e essa é a tônica do intrigante filme de estreia de Ryota Kondo, que bebe diretamente da fonte de Kiyoshi Kurosawa (Pulse, Chime). Há um tom ameaçador permanente que ronda a atmosfera do longa, quase sublime, como se o mundo fosse, por natureza, um lugar duro de habitar. A estática assombra: a ausência de música, a sensação constante de espíritos à espreita, sempre prontos para saltar sobre os personagens. O imaginário central — uma montanha misteriosa — carrega algo de folk, acrescido da estética do J-horror. O resultado é um filme denso, deliberadamente lento, mas que, quando finalmente chega lá, se revela pesadíssimo.
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8 – Bring Her Back, de Danny Philippou & Michael Philippou
Sinopse:
Após a morte do pai, um irmão e uma irmã são enviados para viver com uma mãe adotiva. O que deveria ser um recomeço se transforma rapidamente em algo perturbador quando eles percebem que ela esconde um segredo terrível, ligado à perda, ao luto e à negação da morte.
Comentário:
Quando escrevi sobre Talk To Me, primeiro longa de Danny e Michael Philippou, destaquei a depressão como um de seus motores centrais: havia ali uma falha de conexão emocional — ao menos para mim —, mas a espetacularização do transe funcionava como uma arma tão poderosa quanto o drama que orbitava a morte. Em Bring Her Back, o trauma volta a ser o combustível que incendeia o filme. O que move cada personagem é, essencialmente, a forma como se lida com a morte e o que se está disposto a fazer para preservar lembranças a qualquer custo. Sally Hawkins encarna uma histeria particular do luto, quase febril. Já os irmãos adotados representam a complexidade das relações familiares: enquanto o pai simbolizava opressão para um, era amor para a outra — e esse contraste os une ainda mais após sua perda. Todos buscam o mesmo ponto de suspensão: o equilíbrio instável entre ficar e ir, sentir e não sentir, viver e morrer. Hawkins leva essa busca às últimas consequências, em um arco que dialoga com The Other Side of the Door e afins, ainda que tropece em um desfecho precipitado. Ainda assim, a mensagem que permanece durante boa parte do filme é clara: ciclos se repetem. Bring Her Back é uma obra pesada, sufocante, e emocionalmente exaustiva.
Onde está disponível:
Amazon Prime Video, Claro tv+ e Apple TV
7 – The Surrender, de Julia Max
Sinopse:
Após a morte do patriarca da família, uma relação já tensa entre mãe e filha é levada ao limite quando a mãe decide contratar um estranho misterioso para realizar um ritual capaz de trazer o marido de volta dos mortos.
Comentário:
A Dark Song é inevitável — e isso é um elogio e tanto. The Surrender entende o peso do luto, do sacrifício e da entrega absoluta que esse tipo de horror exige. Muito prazer, Julia Max.
Onde está disponível:
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6 – Fréamhacha, de Aislinn Clarke
Sinopse:
Shoo, uma cuidadora marcada por uma tragédia pessoal, é enviada a uma vila remota para cuidar de uma mulher agorafóbica que teme tanto os vizinhos quanto as Na Sídhe — entidades folclóricas sinistras que, segundo ela, a teriam raptado décadas atrás.
Comentário:
Fréwaka é um folk horror construído a partir da fricção. Entre passado e presente, interior e urbano, paganismo e cristianismo, o filme jamais escolhe um único sistema simbólico — e é justamente nessa recusa que ele se torna estranho, incômodo e profundamente difícil. A abertura ritualística, com o bode e as figuras mascaradas, evoca imediatamente algo próximo de Kill List, mas o corte abrupto para o presente e um suicídio desloca o horror para um espaço doméstico, organizado, quase banal. O corpo pendurado passa a dialogar visualmente com roupas suspensas, sacos, imagens religiosas — como se fé, cotidiano e morte ocupassem o mesmo plano. Aislinn Clarke conduz tudo com uma naturalidade inquietante. Nada é explicado; tudo simplesmente acontece. O luto da protagonista nunca é verbalizado, mas reorganiza seu olhar: no ônibus, ela observa mães e crianças; depois, encara a fotografia da casa para onde está indo. A tradição não retorna como espetáculo, mas como herança. Os símbolos reaparecem deslocados — o varal doméstico ecoa nos objetos pendurados nas árvores; a casa da avó se estende para a floresta; o ritual invade o cotidiano. O passado não assombra: ele estrutura. Visualmente, o filme insiste no achatamento do espaço, em enquadramentos que parecem cortados, sem profundidade, como se tudo conduzisse a um buraco. Fotografia e trilha sonora trabalham em conjunto: sons folclóricos, flautas, batidas graves constroem uma sensação ritualística que dá peso e solenidade às cenas sem jamais recorrer ao espetáculo. O vermelho retorna como prenúncio — na roupa, na luz, na porta do porão — até envolver o corpo da protagonista quando a ameaça se torna consciente. O aspecto mais perturbador de Fréwaka está no choque direto entre religiosidades. Cristianismo e folk horror coexistem sem hierarquia clara. O bode-diabo, o ritual pagão, a iconografia cristã e a imagem mariana sangrando pelos olhos se misturam em um mesmo gesto simbólico. Não importa o sistema: a fé, em suas múltiplas formas, produz aflição, medo e exige sacrifício. Nesse sentido, o filme dialoga diretamente com a ideia de Folk Horror Chain, de Adam Scovell: a estranheza nasce da continuidade do passado no presente. Mas Fréwaka vai além ao sugerir que não é o paganismo nem o cristianismo o verdadeiro horror — é a religiosidade absoluta, aquela que persegue, herda e cobra entrega total. Quase sempre do corpo feminino. É um filme difícil, pouco confortável e nada linear. E talvez seja exatamente isso que o torne tão interessante: Fréwaka não quer explicar o medo. Quer mostrar como ele persiste, independentemente do nome que se dê a ele.
Onde está disponível:
VOD
5 – A Desert, de Joshua Erkman
Sinopse:
Durante uma viagem de estrada, um fotógrafo cruza o caminho de um casal imprudente e sedutor. O encontro o arrasta para uma espiral neo-noir de crime e horror imprevisível, onde cada decisão parece empurrá-lo mais perto do fim da linha.
Comentário:
Um filme que respira perigo, melancolia e crime. O horror aqui é palpável, nascido da sensação de que uma única curva errada pode selar um destino irreversível. A Desert entende o medo como consequência do acaso e da escolha — e nunca como espetáculo gratuito. Joshua Erkman se firma como um diretor a ser observado de perto. Tudo no filme evoca os anos 60: o fatalismo, o silêncio, a estrada como promessa e ameaça. Um horror seco, elegante e profundamente inquietante.
Onde está disponível:
VOD
4 – Presence, de Steven Soderbergh
Sinopse:
Uma família se muda para uma casa suburbana aparentemente comum. Quando eventos estranhos começam a ocorrer, eles passam a acreditar que não estão sozinhos. Há algo ali — observando, aguardando — e essa presença passa a reorganizar silenciosamente suas vidas.
Comentário:
Steven Soderbergh entrega em Presence um filme que não apenas dialoga metalinguisticamente com o subgênero da casa assombrada, mas faz isso sem jamais perder o impacto cinematográfico. Há uma reflexão clara sobre formato e convenções, mas o filme nunca se reduz a um exercício estilístico vazio: ele carrega consigo a força emocional e humana necessária para que sua proposta funcione. Isso é justamente o que faltou, por exemplo, em In a Violent Nature (2024), que tenta reinventar o slasher a partir do ponto de vista do vilão, mas fracassa ao não integrar essa mudança a uma estética capaz de tornar a experiência visceral ou emocionalmente significativa. Muitos citam a metalinguagem de Pânico (1996), mas seu diferencial sempre esteve no fato de que, além da consciência de gênero, ele funciona plenamente como um slasher eficaz. Quando a forma se sobrepõe ao gênero, o resultado tende a ser estéril — e Presence escapa dessa armadilha com precisão. O que torna Presence tão envolvente é a fusão entre estilo e comportamento. A “presença” fantasmagórica não é apenas um elemento narrativo, mas parte de uma observação contínua sobre a própria família retratada. A câmera não serve apenas para registrar a entidade sobrenatural: ela constrói um retrato autêntico do cotidiano, dos conflitos e da dinâmica emocional entre os personagens. Soderbergh transforma a câmera em um olhar que simultaneamente revela a assombração e testemunha as fragilidades humanas que habitam aquele espaço. Visualmente, o filme ecoa o cinema de Ari Aster — especialmente Hereditário (2018) — na forma como a câmera percorre os ambientes e se posiciona acima dos personagens, assumindo uma perspectiva quase onisciente que amplifica tanto a tensão quanto a sensação de vigilância constante. Presence equilibra forma e substância com raro controle, tornando-se não apenas um filme consciente de si, mas um terror que compreende profundamente as emoções que circulam pelo espaço que filma. Soderbergh entrega aqui um horror que não só provoca reflexão, mas envolve e inquieta — exatamente como deveria ser. Palmas para a cena final.
Onde está disponível:
Amazon Prime Video, Claro tv e Apple TV
3 – Weapons, de Zach Cregger
Sinopse:
Às 2h17 da manhã, todas as crianças da turma da professora Gandy — exceto uma — acordam, saem de casa e desaparecem na escuridão. O sumiço coletivo, ocorrido no mesmo horário e sem explicação aparente, mergulha uma comunidade inteira em paranoia, culpa e medo, enquanto todos tentam entender quem — ou o quê — está por trás do ocorrido.
Comentário:
Além de seus subtextos inteligentes sobre a reação do ambiente escolar diante de uma tragédia e da possibilidade de um assassinato em massa, Weapons impressiona pela concepção técnica absolutamente brilhante. É impossível não reconhecer aqui as mesmas qualidades que transformaram It Follows e Sinister em novos clássicos do cinema de horror. A estrutura dramática do horror moderno está toda presente — mas sem jamais abrir mão do explícito, do choque e da surpresa. Zach Cregger demonstra um controle raro de tom: consegue ser sutil, imprevisível e cínico na mesma medida, conduzindo o espectador por um terreno instável onde nada parece seguro por muito tempo. Weapons entende que o horror contemporâneo precisa dialogar com o trauma coletivo sem perder sua força sensorial. E faz isso com precisão, coragem e impacto. Um dos melhores filmes do ano.
Onde está disponível:
Amazon Prime Video, Claro tv+, HBO Max e Apple TV
2 – Sinners, de Ryan Coogler
Sinopse:
Tentando deixar para trás vidas marcadas por violência e fracasso, irmãos gêmeos retornam à cidade natal em busca de um recomeço. O que encontram, porém, é um mal ainda maior, à espreita — antigo, familiar e profundamente enraizado naquele território.
Comentário:
“Chicago é só o Mississippi com prédios altos em vez de plantações. Por isso voltamos. Melhor encarar o diabo que já conhecemos.”
Em Pecadores, Ryan Coogler enraíza seu filme em algo que vai muito além da narrativa tradicional. Ele entrelaça música, vida e morte sob um véu de clandestinidade permanente. O vampirismo aqui não é o das presas, mas o psicológico e o social — pessoas, sistemas e estruturas que drenam a energia alheia, seja emocional, financeira ou existencial. Não é preciso explicitá-los: o espectador reconhece imediatamente a dinâmica desse roubo. A genialidade de Coogler — e fazia tempo que eu não usava esse adjetivo — está em escancarar esse parasitismo desde o início. As cruzes não ditas nos postes de energia, a familiaridade gótica de Chicago com o crime, a presença naturalizada de Capone. O humor surge em sutilezas; o sexo funciona como afrodisíaco contra a solidão; a música, como despertar e sobrevivência. Nos anos 20 e 30 retratados aqui, a clandestinidade do negro se entrelaça à do blues, do bar, do cassino, da expansão, do álcool e da noite. É nesse espaço subterrâneo que Coogler posiciona seu filme. O dinheiro negro ainda carrega a cicatriz da tortura nas plantações, a segregação persiste, e a Klan espreita como sombra não nomeada. Chicago e Mississippi se tornam um mesmo palco de sombras — porões, armazéns, becos — onde a vida social só podia existir fora da lei.
“Eu prefiro encarar o diabo que conheço.”
A sedução do proibido atravessa tudo em Pecadores. Não está apenas nos gêmeos — Michael B. Jordan está brilhante —, mas no speakeasy de blues que brota do dia para a noite: acessível a poucos, prometendo uma dose de vida, de imortalidade, de leitura simultânea do passado, do presente e do futuro. Ao contrário do country, o blues nasceu nas margens da lei. Era dor, sedução, resistência e interdito — os mesmos ingredientes do mito vampírico. Para a sociedade branca segregadora, era a “música do diabo”, associada ao pecado, aos bares clandestinos e à prostituição. Mas ali, naquelas noites, o blues era mais que transgressão: era alento, fervor, pulsação. Sangue correndo pelas veias de uma cidade que não dormia. Em Pecadores, o proibido circula como corrente sanguínea, e o som é o ritmo desse pulsar. Coogler se reafirma como um cineasta de camadas: já transitou entre Malcolm X e Luther King em Pantera Negra, expôs a luta em Creed, e agora encontra uma forma de redenção aqui. Por quê? Porque garante um subtexto visceral que atravessa tudo — a relação entre branco e negro, segregação e vampirismo. A Klan paira como um demônio coletivo, não apenas histórico, mas mítico. O mal não se esconde sob capuzes.
Em um dos diálogos mais fortes do filme:
“Ela disse que eles vão matar todos nós.”
“Ela disse ‘eles’?”
Esse “eles” sem rosto é o coração do medo: a certeza de que o inimigo não precisa ser nomeado, pois já está infiltrado em tudo, drenando e corroendo. Jack O’Connell é extraordinário como o diabo sedutor, o vampiro-mor. Ele não ataca com presas, mas com palavras — diz exatamente o que se precisa ouvir. Lembrei imediatamente de sua atuação em Invencível, de Angelina Jolie, um filme frágil onde ele já era muito maior que o material. Aqui, finalmente, encontra um papel à altura do talento que sempre teve. A sequência final, com os corpos negros queimando, é perturbadora, quase insuportável — e necessária. Não como choque, mas como testemunho. A redenção só vem pelo enfrentamento: o acerto de contas, a morte da Klan, o diabo devolvido ao inferno. E então, em 1992, o filme respira novamente pela música. O blues atravessa gerações e retorna como herança imortal — sangue que continua circulando apesar de todas as tentativas de apagamento. É a vitória de uma cultura que sobreviveu ao açoite, ao exílio, à segregação e ao mal. E que ainda pulsa, viva, em cada acorde.
Onde está disponível:
Amazon Prime Video, Apple TV e HBO Max
1 – El llanto, de Pedro Martín Calero
Sinopse:
Andrea, em busca de sua família biológica, passa a sentir-se perseguida por uma ameaça invisível. Outras mulheres antes dela sofreram o mesmo destino. Vinte anos antes, do outro lado do mundo, Camille, fascinada por Marie, tenta alertá-la sobre algo terrível que paira sobre sua vida. Histórias separadas pelo tempo e pelo espaço se conectam por um mal que nunca partiu.
Comentário:
O mal não se move. As pessoas é que passam.
The Wailing (El llanto) não constrói seu horror a partir do choque, mas da permanência. Algo já está errado muito antes de sabermos o quê. O filme começa observando suas personagens antes mesmo que elas percebam estar sendo observadas. Em Madri, Andrea atravessa espaços carregados de olhos: janelas circulares, objetos, arquiteturas que sugerem vigilância. Ainda não há uma entidade definida, mas existe a sensação constante de que o mundo olha de volta. O horror nasce dessa assimetria — ser vista sem compreender por quem. O salto para La Plata, em 1998, não é apenas temporal; é uma mudança no regime do olhar. Se Andrea vive cercada de olhos, Camilla habita um mundo de linhas, interseções e continuidade. Antes da vigilância total, antes da saturação da imagem, há enquadramento. A câmera ainda é objeto, curiosidade, gesto investigativo. Não por acaso, Camilla inicia seu documentário filmando um telefone antigo: três linhas diagonais que não se cruzam, mas se mantêm ligadas. O filme já anuncia seu método: o horror não opera por colisão, mas por propagação. É significativo que o interesse de Camilla por Marie surja diante da ausência de olhar. Antes da entidade, antes do lamento, o que inquieta é uma mulher que não vê, que não reage à câmera, cujo olhar parece já sugado. O vazio precede a presença. Como nos ecos do J-horror — Pulse à frente —, o filme compreende que o buraco vem antes do monstro. A entidade não cria o trauma; ela responde a ele.
O lamento feminino que atravessa o filme não funciona como personagem, mas como arquétipo ancestral. Uma mulher que não ataca, não explica, não persegue. Ela anuncia. Como nas tradições argentinas e espanholas, o choro surge como presságio de ruptura, não como causa. É som antes da imagem, memória antes do enquadramento. Em um filme obcecado pelo olhar, essa figura existe fora da lógica visual. Ela não pode ser plenamente filmada. Ela precisa ser ouvida. O velho — a entidade que consome e mata — tampouco se oferece ao olhar direto. Ele é o homem que ninguém vê, mas que age. Só existe plenamente quando mediado pela câmera, pela gravação, pelo arquivo. Seus olhos não estão mortos: estão vazios. Ele não deseja, não seduz, não negocia. Ele cumpre. E cumpre sempre quando alguém olha demais, quando a câmera deixa de ser mediação e passa a ser tentativa de controle. É como se o opressor dissesse: não me note. O prédio abandonado onde o lamento se fixa atravessa La Plata em 1998 e retorna em Madri em 2022 como se jamais tivesse partido. Não é cenário: é permanência. O mundo muda, a tecnologia muda, os olhares mudam — o prédio não. Como a mulher do lamento, ele não persegue ninguém. Apenas permanece, esperando que alguém passe por ele.
Talvez o que torne The Wailing tão perturbador — e, indiscutivelmente, o filme mais assustador do ano — seja sua recusa em oferecer catarse. Não há enfrentamento real, não há explicação que organize o caos. O filme fala de memória herdada, de traumas não elaborados, do olhar como maldição e da tecnologia como falsa proteção. O horror aqui não quer ser visto. Ele quer continuar.
E continua.
Onde está disponível:
Amazon Prime Video , Google Play, Apple TV
Bons filmes!






