Embora Santa Catarina possua uma tradição sólida de curtas-metragens — muitos deles de altíssima qualidade —, o mesmo nunca se refletiu com a mesma força no campo dos longas-metragens. Pelo contrário: a produção local sempre pareceu desestimulada por figuras marcadas pela falta de personalidade, que semeiam um paternalismo desesperado como forma de se manter relevantes. Mesmo diretores vindos de fora do Estado para filmar Santa Catarina ou utilizá-la como cenário central — como no conhecido caso de Jeferson De e o terrível O Amuleto — jamais alcançaram algum lugar cinematográfico realmente significativo. O motivo não está apenas na falta de qualidade técnica, mas na urgência recorrente de tratar Florianópolis e o Estado como mero cartão-postal ou como um território essencialmente bruxólico.
Ora, as tradições da bruxaria e os cenários paradisíacos da região são, de fato, elementos ricos. O problema é quando usados de forma gratuita: esvaziam-se, desaparecem. É justamente por isso que chama atenção o primeiro longa-metragem de ficção de Cíntia Domit Bittar. Virtuosas possui uma amplitude rara no cinema catarinense recente e se aproxima muito mais do cinema de Walter Hugo Khouri do que do cinema de Zeca Pires. Aqui, os aspectos folk interessam mais do que a espiritualidade pasteurizada que frequentemente se tenta impor como identidade do cinema local.
Dona de uma filmografia consistente em curtas-metragens — como os excepcionais Tempo Que Leva e O Segredo da Família Urso —, Cíntia encara Virtuosas como um projeto profundamente pessoal desde o princípio. Sua câmera, exageradamente próxima das personagens, busca transferir ao espectador o mesmo desconforto que a diretora parece sentir diante daquelas situações. Virgínia Heinzel (Bruna Linzmeyer) é uma coach religiosa que tenta construir uma comunidade política por meio de um retiro para mulheres selecionadas, em um ambiente rural incrustado dentro da cidade. À medida que essa jornada espiritual se transforma em experiência caótica, os horrores que cercam o grupo tornam-se cada vez mais explícitos.
Não por acaso, a própria câmera de Cíntia passa a agir como observadora à medida que a narrativa se adensa, entrando no ritmo íntimo das personagens. Isso se evidencia de forma precisa no momento a sós de Virgínia e Goreti — uma cena de desejo reprimido, vivida às escondidas, em que Goreti cede. A câmera se projeta junto desse pacto silencioso, em tom denunciativo. Há algo de profundamente incômodo nesse olhar: o da jornalista que observa, registra e entende que o poder ali exercido não se dá pela força, mas pela manipulação do desejo.
À parte, o trabalho de figurino em Virtuosas é extraordinário. Logo no início, as roupas simétricas e bem delineadas das virtuosas evidenciam ordem, controle e pertencimento, enquanto Germina (Maria Galant) surge quase deslocada, vestindo verde e estampas florais — como se já estivesse mentalmente no retiro antes mesmo de sua chegada. Esse deslocamento se manifesta em detalhes sutis: o contraste entre o salto fino das virtuosas e o salto mais grosso usado por Germina ao chegar é outro ponto alto, como se aquelas vestes não fizessem parte de sua rotina.
Germina, afinal, torna-se a intrusa que pensa, que provoca, que semeia o caos de dentro para fora — até que ele se torne grande demais para permanecer contido. É nessa profundidade que Virtuosas se revela mais interessante: na sua capacidade de sugerir o horror através do drama, sem recorrer a soluções fáceis. Ainda que talvez não seja possível classificá-lo plenamente como folk horror, o filme carrega elementos claros da chamada segunda onda do subgênero — uma onda identitária, global, marcada pelo protagonismo feminino e pela chamada “corrente do folk”: a paisagem, o isolamento, a distorção social pela religião e o acontecimento (ou invocação) que instaura o distúrbio. São obras que lidam com tradições e traumas antigos filtrados por um olhar moderno, atravessados por dores mundanas e profundas.
Virtuosas carrega muito desses elementos. O filme procura deixar claro que há um mundo perigoso coexistindo entre nós. Um mundo que escancara como símbolos, rituais e lendas — quando observados com propósito — não apenas sobrevivem, mas podem, sim, matar. É sem dúvidas o melhor longa-metragem de horror que Santa Catarina já produziu.






